Até quando mulheres serão mortas? especialistas respondem: com a mudança na educação das pessoas - Rádio Missioneira - São Luiz Gonzaga - RS
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São Luiz Gonzaga
28 de abril de 2018
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Até quando mulheres serão mortas? especialistas respondem: com a mudança na educação das pessoas

28 de abril de 2018 l 17:04
Materia atualizada: 28/04/2018 l 17:04




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Kelly Ostwald, 24 anos; Nilce da Silva, 22 anos; Roseli Maria Leichtweis, 32 anos; Irene Diel, 41 anosIeda Gomes da Luz, 41 anos; uma mãe morta quando falava ao telefone com o filho. O que essas mulheres possuem em comum? Elas foram mortas por dizerem não. Morreram porque decidiram que não queriam seguir com os relacionamentos que tinham. Morreram por serem mulheres vistas como objeto de posse, que na visão dos assassinos, não tinham direito de viver, caso não fosse com eles.  Em todos os crimes, os ex-companheiros são os acusados de assassiná-las. Alguns decidiram não pagar por seus crimes, preferindo tirar a própria vida. Outros estão presos, aguardando julgamento, enquanto um dos acusados segue sua vida normalmente.

Pelo menos outras 15 mulheres poderiam ter tido o mesmo destino de 2017 pra cá, mas a partir de denúncias à polícia, foram presos preventivamente na região. As vítimas relataram que os homens não aceitavam o fim da separação, o que resultou em agressões e ameaças.

As missioneiras fazem parte do assustador número de feminicídios registrados no Brasil, em especial o Rio Grande do Sul, onde 280 mulheres foram mortas no ano passado, conforme a Secretaria de Segurança Pública.   Em pouco mais de 15 dias, dois casos ocorreram na região, das Missões o que abre a necessidade de um debate importante em torno do tema, com inúmeras pessoas se perguntando: até quando as mulheres serão mortas nessas condições?

A reportagem da Rádio Missioneira ouviu especialistas no assunto, que são unânimes na resposta: só quando houver uma cultural na sociedade, começando pela educação em casa.  Por mais que existam avanços na lei para proteger as mulheres, principalmente após os anos de 1990, a mudança na sociedade que ainda vê o homem como superior em relação à mulher, é o que fará a diferença no cenário triste da morte de mulheres e mães, além do alto índice de suicídio dos assassinos. Até poucos anos, eles eram absolvidos na tese de crime passional ou defesa da honra.

Nem todos são psicopatas, ao contrário do que a sociedade pensa

O senso comum qualifica todos os criminosos como psicopatas. No entanto, nem sempre é assim, como explica a psicóloga e pesquisadora do tema, Jaqueline Cruz. “A psicopatia é mais específica, a pessoa nasce assim e nem sempre será assassina. Nos casos de violência e morte de mulheres, a questão é social e cultural”, analisa profissional, que faz mestrado na área em Buenos Aires.

No caso dos psicopatas, há o prazer na maldade, detalha a psicóloga. Já os agressores veem como um ato natural a violência. “Ele sente que a mulher não cumpriu seu papel de esposa e a agride por ter feito algo que pra ele é errado”, expõe.

Ela também não crê que homens tenham uma condição biológica à violência. “Se fala muito nisso, mas analisando psicologicamente, está muito mais ligado à criação, ao exemplo vindo dos pais e de casa”, argumenta.

Jaqueline percebe que os homens, em geral, não estão preparados para lidar com a rejeição. “Ele é quem decide quando a relação acaba, não permitindo que a mulher tenha essa escolha, gerando a violência e os feminicídios”, cita.

Papel da educação em casa

Com duas décadas de atuação profissional, grande parte ligada aos casos envolvendo mulheres e crianças, a delegada Elaine Maria Schons, já viu casos que arrepiam qualquer um, desde mortes seguidas de suicídios, ao assassinato dos filhos queimados e da esposa (que neste caso sobreviveu). Com propriedade, ela também afirma que só quando houver uma mudança social, os casos de feminicídios serão freados.

Nos depoimentos que colheu quando o assassino fica vivo para contar a história, na maioria a versão é a mesma. “São atitudes pensadas antecipadamente, não atos de desespero. A pessoa não quer que a outra viva sem ela”, conta Elaine, citando também a depressão e a falta de buscar apoio profissional como fator que influencia nos crimes.

A delegada, que é mãe de duas meninas e um menino, vê na educação das crianças uma esperança, ao mesmo tempo angustiante. “Recai no papel da mãe ensinar o respeito, a igualdade, a mostrar que não há nada que sobreponha os homens em relação às mulheres”, constata.

Saber dizer não também é um fator essencial, analisa Elaine. “Os pais hoje não sabem dizer não para as crianças, por medo. Mas elas precisam desde cedo saber que nem tudo é como querem. É um passo para saber lidar com a rejeição, frustração e com o não”, propõe a delegada.

Apesar do cenário preocupante, ela vê com esperança as gerações futuras. “Pais conscientes, que ensinem os valores morais em casa, aliado ao papel da escola, vão resultar na mudança desses índices de violência em todos os aspectos”, defende.

A cultura machista é a base do processo violento

Para a professora da área do Direito Joice Nielsson, pesquisadora de gênero, a cultura machista, onde o homem se coloca como proprietário da mulher, é a base do processo violento que culmina com o feminicídio. No entanto, a violência começa bem antes, com atitudes às vezes sutis.

Ela também vê com tristeza que o senso comum tenta indicar a culpa na vítima da violência. “A culpa de uma situação de violência jamais é da vítima, ou seja, não é culpa da mulher, e não cabe a ela ter que mudar seu comportamento. A responsabilidade é do agressor, e é ele que deve ser tratado”, defende Joice.

Joice fica com o chocada com a negativa de grande parte da sociedade em debates sobre feminismo. “As pessoas não compreendem a relevância dos debates sobre feminismo e papéis de gênero, porque é o machismo e a desigualdade que ele impõe que leva à morte de mulheres”, explica.

Assim como Elaine e Jaqueline, a professora vê na educação a mudança. “O caminho, a longo prazo, passa necessariamente pela educação não machista, pela educação para a igualdade e para o respeito, e pela educação para a não violência”, detalha. “Sem essa mudança nos rumos, seja por parte da família, seja por parte da escola e da sociedade, continuaremos a empilhar corpos de mulheres mortas”, lamenta.

Os traços de ruralidade nas Missões

Sandra Nogueira, professora e pesquisadora do assunto, argumenta que as características da região das Missões são determinantes para concentrar metade dos casos de feminicídios no Rio Grande do Sul.  “O fato de ser uma região com características geopolíticas específicas de atrasos profundos, exemplificados pelos altos fluxos migratórios, oportunidades restritas na geração de emprego e renda e forte presença da cultura patriarcal ainda com traços feudais, tornou as vivências familiares das ruralidades, territórios marcados pelo silêncio e pela invisibilidade das mulheres”, ressalta.

Após o assassinato de Roseli, em Salvador das Missões, ela criou uma comunidade virtual chamada “Grupo Somos Tua Voz, Rose!”, com mais de duas mil pessoas, para discutir a violência contra as mulheres. Mas isso não basta. Ela assegura que todos os espaços, principalmente as universidades, devem assumir o protagonismo da discussão e produção de conhecimento sobre igualdade de gênero e empoderamento feminino.

Comportamentos que exigem alerta

Há uma crença que diz. “Se quer saber como será tratada, veja como um homem trata sua mãe?. Apesar de ser um ditado popular, a psicóloga Jaqueline acredita nele. “Muitos comportamentos são sinais que indicam que a pessoa deve sair da relação”, afirma. Ela dá como exemplos:

– Ciúme exagerado e possessividade;

– Não deixar a mulher trabalhar;

– Não deixar sair de casa;

– Controlar que roupa irá vestir;

– Autoritarismo e tom de voz agressivo;

– Violência patrimonial (controlar o dinheiro da pessoa);

– Forçar relações sexuais;

– Exigir que só a mulher tenha responsabilidade pelos serviços da casa e educação dos filhos.

Procurar ajuda antes que seja tarde

As profissionais orientam que as perceber sinais como os acima, é necessário agir, antes que seja tarde. Uma alternativa é a terapia de casal ou individual, uma vez que os comportamentos podem mudar.

Nos casos mais graves, sair da reação e denunciar à polícia é a orientação. A ajuda pode ser buscada pelo telefone 190, da Brigada Militar (BM) ou Polícia Civil (PC) no 197 ou diretamente na delegacia. Em São Luiz Gonzaga a Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) atende 24 horas diariamente. 


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