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São Luiz Gonzaga
28 de novembro de 2018
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A geração de meninas que discute feminismo nas escolas do interior e combate a violência contra a mulher

28 de novembro de 2018 l 20:44
Materia atualizada: 29/11/2018 l 08:21

Em Santo Antônio das Missões um trio de meninas é referência na comunidade para falar do tema





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Se a onda conservadora brasileira insistir em tentar barrar o debate de igualdade entre homens e mulheres, é bom se preparar para encontrar muita resistência. Nas grandes cidades e nas pequenas e médias, como São Luiz Gonzaga e Santo Antônio das Missões, meninas mostram que o debate é cada vez mais urgente. Se depender delas, feminismo e combate à violência contra a mulher vão continuar sendo discutidos no espaço escolar.

Em Santo Antônio das Missões, município distante 600km de Porto Alegre, três meninas fazem a diferença na comunidade através de um projeto inédito: o Elas por Elas. As estudantes da Escola Técnica Achilino de Santis, localizada no interior, iniciaram o debate sobre igualdade entre homens e mulheres. Até então, feminismo era uma palavra não dita na escola e na sala de aula, composta por maioria masculina.

Ao analisar os inúmeros crimes de violência mulheres, inclusive com morte, e situações cotidianas de machismo, as alunas criaram o projeto na escola, com apoio da professora Andreia Balbé. A iniciativa evoluiu e hoje é destaque na comunidade, em eventos escolares internacionais, palestras e ações no município.

“Ninguém discutia isso aqui na escola e via a necessidade de conversar sobre relacionamentos abusivos. Eu mesma tinha passado por isso e sabia de outras jovens”, relata a aluna Laila Barcelos, de 17 anos. Com duas colegas, elas começaram a estudar o tema da violência de gênero e do feminismo.

Nas aulas de seminário integrado a professora Andreia orientou o projeto, vencedor na Mostra de Trabalhos das Escolas Públicas (MEP). “Vejo como ótima essa iniciativa que partiu delas. É assunto que precisa de destaque diante de tantos casos de violência”, analisa a docente.

 

Munidas de muita informação, baseadas em casos reais – muitos deles da região, uma das mais violentas para mulheres no Rio Grande do Sul – , Mayuri Camargo Guerreiro, Laila Barcelos e Giovana Balbé, se tornaram referência sobre o tema na escola técnica.  Elas passaram a ser procuradas por outras meninas que relataram relações abusivas e em busca de ajuda. No município, também são convidadas para eventos e palestra, onde falam com propriedade sobre o assunto.

“Precisamos ser irmãs umas das outras”

Mesmo com sucesso, já era imaginado que encontrariam resistências, principalmente dos meninos. “Infelizmente alguns são mais antiquados que os de antigamente”, destaca Giovana.  A estudante analisa que o movimento feminista é necessário. “É preciso que as mulheres lutem por seus direitos, por mais respeito, igualdade e principalmente mais liberdade”, argumenta. Quando fala em liberdade, diz que se refere não só a de escolhas, mas de simplesmente sair na rua sem medo do inconveniente e perigoso assédio dos homens.

A resistência na escola não foi só dos meninos. Giovana percebe que é preciso apoio das meninas. “Precisamos de sonoridade entre nós mulheres, nos apoiar, ajudar e deixar os julgamentos de lado. Precisamos ser irmãs umas das outras”, resume.

Laila vê da mesma forma. “No momento em que uma menina/mulher despreza o movimento [feminista] ela despreza a si mesmo e as outras tantas que já morreram para que hoje pudéssemos ter o direito de votar, dirigir, trabalhar e estudar”, conta. Para a jovem, é preciso fortalecer o feminismo hoje. “Apesar de tantos avanços a maioria da população ainda faz críticas ao movimento feminista, por essa e outras questões penso que o movimento não pode parar e todas nós devemos fortalecê-lo”, ressalta.

Violência no meio rural

Com uma das maiores áreas rurais da região, muitas famílias vivem em localidades distantes, sem a presença de vizinhos. Nesses locais a violência contra as mulheres é mais silenciada. A situação preocupa as meninas.  “O meio rural é um dos principais locais que ocorre a violência doméstica. Ninguém ouve, ninguém vê, ninguém denuncia”, lamenta. Nas palestras recentes, esse foi um dos principais enfoques. As jovens palestraram em encontro promovido pelo sindicato dos trabalhadores rurais do município, com grande presença de agricultoras.

Elas encorajam as mulheres a acabar com o silêncio. Muitas não entendem que agressões, sejam físicas, psicológicas ou verbas, não fazem parte de um relacionamento saudável. Nos primeiros dez meses deste ano o município teve dois lesões corporais, um estupro e 30 ameaças, segundo dados da Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP/RS).

Em São Luiz Gonzaga as minas também são destaque

Na escola Amália Germano de Paula um dos trabalhos mais visitados na mostra foi o das jovens Ranile Freire e Luísa do Prado Marcoto, de 14 anos. Elas mostraram a crueldade dos feminicídios, em especial na região das Missões. “Pesquisamos a fundo esse assunto”, diz Ranile. A professora Marciele Marques orientou o trabalho. “Vejo que muitos professores não tratam desses assuntos em sala de aula, mas o debate é urgente”, relata Luísa.

Elas chegaram a conclusão que a educação é uma das principais maneiras de mudar o triste cenário em que homens matam uma mulher a cada duas horas no Brasil. “Precisamos conversar mais com as pessoas sobre esses crimes. As pessoas não podem esquecer do assunto. Existem muitas mulheres sofrendo com isso e não são ouvidas”, explica Ranile.

Nesta semana, a dupla foi até a escola Senador Pinheiro Machado palestrar para os alunos sobre a pesquisa que realizaram. O convite foi do professor Luiz Henrique Moreira Melo, que desenvolve o projeto (Des)Problematizando temas no contexto escolar e familiar que assombram a sociedade”.

“Somos bem feministas sim”

Elas enxergam que o movimento e a união das mulheres trazem resultados positivos para a sociedade. “Eu luto pela liberdade. Até de sair na rua com uma roupa curta sem ser assediada” pontua a estudante. “Eu fico triste que muitas mulheres nos criticam em vez de se unir. A gente tenta mudar isso, mesmo que não mude tudo”, desabafa Luísa. Se mulheres ainda têm medo de se declararem feministas, ou seja, que apoiam a igualdade do homem e da mulher, Ranile e Luísa, além de outras meninas da geração, se orgulham em falar “somos bem feministas sim“.

Autora: Amanda Lima

Fonte: Rádio Missioneira

 


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