SÃO LUIZ GONZAGA

São Luiz Gonzaga, RS, Brazil

Entre a gaita e o chapéu: conheça a história de Mano Lima

  • 28 de abril de 2018

Que
suas canções são alegres, engraçadas e que ele sempre fez questão de manter seu
estilo em todas elas, não é novidade. Agora, que em sua essência está um homem
que tem na fé e na simplicidade a grande missão para empreender na música e na
vida, talvez nem todos saibam. Reconhecido internacionalmente como Mano Lima,
este é o tropeiro e músico gaúcho, Mário Rubens Batanolli de Lima, natural de
Itaqui e nascido no Bororé, atual distrito de Maçambará.

Com
65 anos de idade, Mano Lima já consegue se manter só da música, mas por muito
tempo trabalhou como tropeiro. E foi aí que percebeu os encantos do Rio Grande,
que sempre transmitiu em suas músicas.

Tinha
8 anos de idade quando o avô faleceu. O pai ficou cuidando das terras no Bororé
com a ajuda dele, enquanto os outros sete irmãos estudavam. Mais tarde,
dificuldades financeiras obrigaram o pai a vender a propriedade e ir morar com
a família em São Borja, o que significou um novo rumo profissional na vida de
Mano Lima.

Aos
20 anos de idade foi trabalhar como capataz de estância e tropeiro. Depois,
teve uma comitiva de tropa e se tornou um tropeiro de respeito. O primeiro
salário foi para ajudar sua mãe, que cozinhava fora para auxiliar no sustento
da família.

Mesmo
sem se dar conta, Mano Lima sempre teve o artista em seu coração. Mas, foi
preciso muito tempo, além da insistência e da mão abençoada de um grande amigo,
o poeta e escritor gaúcho, Aparício Silva Rillo, para que ele acreditasse que o
sucesso já estava escrito em seu caminho.

Mais
do que abrir a porteira de sua estância, a Fazenda Santa Cecília, para tão bem
me receber, localizada próxima ao município de São Boja, Mano Lima abriu seu
coração e falou sobre sua história de vida, que é movida pela fé e pela
simplicidade.

É
claro que seu lado engraçado, uma de suas caraterísticas peculiares, também
esteve presente em grande parte da nossa conversa. Ao contextualizar alguns
relatos, ele disse: ?o homem se ajeita nas lutas que passa, pois o laçaço da
vida dói em quem leva?.

Neste
depoimento singelo dá pra ter uma ideia de como surgiu o grande artista Mano
Lima, um dos representantes da cultura terrunha e da música gaúcha, que
escolheu a região das Missões pra viver e deixar o seu legado. O mais recente
CD de Mano Lima chama-se ?De Pai pra Filho?, com a participação especial de seu
Filho, Pedro Lima, que o acompanha nos shows.

Ele
manda um importante recado para quem quer empreender na música ou qualquer
outra área de atuação. ?Não façam o que Mano Lima fez. Quando um amigo surgir e
disser que você é capaz. Acredite e vá em frente. Mas antes de tudo isso,
precisa ter fé. Confie em Deus e seja grato, pois somente Ele vai te levar até
onde você quer chegar?.

POETA
E CRIADOR DE MANO LIMA

Mano
Lima - Num certo dia meu pai me pediu pra assar uma carne para o poeta e
escritor gaúcho, Aparício Silva Rillo. Bueno, ali toquei minha gaita e cantei
alguma coisa. Como eu sempre fazia pelos galpões, mas sem nenhum compromisso,
porque o meu trabalho era como tropeiro. Logo depois, eu soube que quando o
Rillo chegou em casa, disse pra mulher: hoje conheci um verdadeiro artista.
Dali em diante ele passou uns 10 anos tentando botar na minha cabeça que eu era
artista, e eu sempre teimando que não. Rillo dizia o tempo todo que eu era
capaz e pra minha mãe sempre repetia: teu filho é um artista. Mas de nada
adiantava, porque eu, assim como a minha mãe, sempre botava ele pra correr.

PRIMEIRO
DISCO

Mano
Lima - Até que um dia, por volta dos meus 30 anos de idade, como eu não
aguentava mais a insistência do Rillo, mesmo contrariado gravei o tal de disco,
que teve o apoio financeiro do Tono Pinheiro e do Grupo Costanera. Ainda lembro
bem que quando cheguei em casa disse pra mãe: agora que gravei o disco, o Rillo
vai parar de me incomodar. Quando chegou o disco na rodoviária de São Borja, o
Rillo foi me buscar. Minha amiga, eu nunca esqueci do semblante e da emoção
dele assim que viu a capa. Segurava aquilo nas mãos como se fosse um filho. E
eu, ainda não via nenhum fundamento e só ficava pensando: o que vou fazer com
essas caixas cheias de discos?

 

O
SUCESSO

Mano
Lima - Peguei as caixas e levei pra casa. Minha mãe com a casa apertada, mais
preocupada em arrumar comida pra nós. O jeito foi colocar tudo no meu quarto.
Quando passava alguém na rua, eu dava um disco pra ir me livrando daquelas
caixas. Às vezes nem era meu amigo, e eu dizia vem cá vou te dar um presente.
Até que terminei com tudo. O disco estourou e foi sucesso de uma maneira que
não pude mais parar em casa. Uma das músicas carro-chefe do primeiro disco foi
?Como é que eu tô nesse Corpo?. Estourou valendo e eu tive que saltar de casa,
porque o Rilo falou: tu vai pro palco te apresentar. E eu apavorado, pois não
sabia nem o que era um palco. Nós tínhamos uma lista de show, mas nem preço
tinha. Era um lote de show marcado e o preço era de acordo com a situação.

 

PRIMEIRO
SHOW

Mano
Lima - Cheguei em Santiago, no Ginasião, pra fazer meu primeiro show e tinham
10 mil pessoas me esperando. O Eurides Nunes me acompanhou. A partir daí fui
pegando os macetes da música e da vida, pra chegar onde estou hoje. Eu não
tinha conhecimento nenhum, não sabia nem que tom eu tocava, que era em Dó
maior. Fui pegando o jeito na estrada, viajando e aprendendo como lidar com
tudo aquilo.

 

UM
POETA, UM ILUMINADO

Rillo
sempre me dizia: fala o que vem da tua cabeça e do teu coração. E nunca grave o
que é dos outros. Grava o que é teu, que o teu segredo está no que é teu! Ele
sempre teve razão e eu não sabia, pois sempre soube da minha capacidade,
enquanto eu não conseguia enxergar e nem acreditar. Ele era mais que um poeta.
Era um ser iluminado. Mano Lima foi Rillo que criou. Tem o pai do Mário Rubens,
amigo e que me ajudou a crescer como homem, o Rubens Colombo Lima, e tem o pai
do Mano Lima, que é Aparício Silva Rillo.

 

ENTRE
A GAITA E O CHAPÉU

Eu
participava do grupo os Angueras, porque ainda não estava independente. Por
causa disso precisei vender a gaita pra comprar o chapéu e ir pra tropa, na
condição de que quando eu voltasse, o cara me vendesse de novo. Deu certo, pois
com o dinheiro da tropa comprei de volta a minha gaita. Passei por muitas
dificuldades até pegar o jeito e aceitar que eu era um artista. Hoje fico
pensando o quanto o Rilo teve valor na minha vida. Tudo o que ele dizia era
realmente verdade. E nunca deixei de ser o Mano tropeiro, que sempre esteve
dentro de mim. Músico sou por acaso, porque o Rillo disse que sou. Mas tropeiro
sou desde que nasci.

 

DEVOÇÃO
A SANTA CECÍLIA

Mano
Lima - Sou devoto de Santa Cecília porque no quarto em que nasci havia uma imagem
dela com uma arpa. Aquela imagem ficou gravada na minha cabeça e somente com o
passar do tempo, fiquei sabendo que ela era a santa protetora dos músicos. A
estátua dela, que está na entrada da minha estância e que leva o nome de
Fazenda Santa Cecília, tem uma expressão angelical que emociona. Assim como a
escultura do cacique M?Bororé que tenho em frente à minha casa na fazenda, são
artes do escultor Vinícius Ribeiro. O Vinicius é um grande artista missioneiro,
que traz a herança das Missões em suas obras e em seu coração. Também foi ele
que fez a estátua de Mano Lima com sua gaita, uma homenagem que recebi da
prefeitura de Maçambara.

 

INSPIRAÇÃO
PRA COMPOR

Mano
Lima - Às vezes eu sonho que estou fazendo uma letra e aí termino depois. Às
vezes estou andando a pé ou a cavalo campo afora, às vezes uma frase me puxa
uma letra. Eu sinto quando começo a compor que está na hora de gravar. Deus, o
campo e o cavalo são a caneta das minhas inspirações e composições. Trabalho
muito com esta parte mística. Já que eu não sabia nada de mim e foi um amigo
que me descobriu, passei a perceber que a vida está prescrita.

 

ORAÇÃO
E PÚBLICO

Mano
Lima - Antes dos shows faço minhas orações. Só vou para o palco depois que
sinto a presença de Deus. Tenho na minha cabeça até hoje, que não sou um
artista, que tenho uma missão e sou apenas um mensageiro, pois em tudo Deus me
conduz. Não preocupo com nada, simplesmente confio em Deus. Tem momentos em que
até chego a chorar, tamanha é minha emoção ao sentir a presença de Deus e do
Espírito Santo, especialmente antes de fazer meus shows e de estar com o meu
público.

 

MOMENTOS
DIFÍCEIS

Mano
Lima - Na música foi quando eu precisei fazer uma cirurgia e estava me
recuperando. Tinham muitos shows agendados. Poucos daqueles que me contrataram
tiveram a compreensão de que eu estava impossibilitado de me apresentar. Alguns
deles até vieram me visitar, mas a maioria dos contratantes não tiveram compreensão.
Ficou pra trás, mas isso me afetou bastante, porque aprendi com meu pai que,
não apenas o trabalho, mas sim o compromisso é o que ajuda um homem a crescer.
Na vida pessoal, o que mais me marcou foi a perda do meu sobrinho, aos 26 anos
de idade. Era um jovem por quem eu tinha amor como por um filho. Mas, graças a
minha fé, entendi que ele esteve conosco apenas pelo tempo de cumprir sua
missão. Mesmo assim, doeu muito e dói até hoje.

 

MOMENTOS
FELIZES

Mano
Lima ? São Muitos. Mas entre os mais marcantes cito o nascimento dos meus
filhos, triunfar como músico e minha gratidão pelo reconhecimento que tenho do
meu público, dos meus fãs, que pessoalmente e pelas redes sociais, sempre estão
me homenageando de forma muito alegre e respeitosa. Além de ter o reconhecimento
de artistas nacionais como do Sorocaba, da dupla Fernando e Sorocaba, que
recentemente me convidou para gravar um disco.

 

RECADO
PARA QUEM ESTÁ TRILHANDO NOVOS CAMINHOS

Mano
Lima - Que não façam o que Mano Lima fez. Quando um amigo surgir e disser você
é capaz. Acredite e vá em frente. Acredite também que a palavra tem força, mas
o que tem mais força que tudo isso é o pensamento. Porque não existe uma
atitude que não venha do pensamento. A nossa religião, a nossa fé, a nossa
força vem de dentro de nós. Para mim, a felicidade está na simplicidade e o
homem nada mais é do que o reflexo de suas atitudes. Confie em Deus, pois
somente Ele vai te levar até onde você quer chegar. Deus vai por vários
caminhos, mas Ele é um só. Portanto, a religião é simplesmente a copa do chapéu
e o importante não é a copa, mas o chapéu.

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