Ela gosta de Frida Kahlo. Assim como a pintora mais marcante
da história mexicana, também teve uma vida sofrida, principalmente o começo
dela. Frida, transformou dor e sofrimento em arte, e a personagem desta
história, tenta transformar o que vive em aprendizagem e superação.
Com 25 anos de idade, a jovem foi a única que aceitou
conversar com a reportagem da Rádio Missioneira, que percorreu prostíbulos do
município em busca de personagens esquecidas, que ficam a mercê da sociedade e,
que quando tem sua trajetória contada, são julgadas, para matéria especial do
dia da mulher. A profissional do sexo, que preferiu o anonimato, conta que
tinha apenas 16 anos quando sofreu o primeiro assédio.
Assim como ela, milhares de outras mulheres sofrem anualmente
com esse crime, que também é comum em ambientes de trabalho. Foi pelas palavras
do chefe que ela se viu nesta situação. "Na época eu era jovem aprendiz.
Trabalhava em uma cidade aqui do interior. Aos poucos comecei a perceber as
intenções do meu chefe", fala.
A jovem explica que não demorou para que o assédio de forma
intensa começasse a ocorrer. "Ele queria transar comigo e insinuava isso
claramente. Eu tinha medo e não tinha para quem recorrer. Eu era virgem. Isso é algo que te
aprisiona e você fica sem saber ao certo o que fazer", diz.
Os assédios continuaram. Com medo, procurou alguma forma para
sair do emprego. Foi quando recorreu ao namorado e pediu por ajuda. "Eu tinha
um namorado, mas ele não me ajudava em nada. Eu precisa de dinheiro e passava
por muita dificuldade financeiramente na época. Ele não queria nada com nada.
Descobri que tempo depois que usava droga. Não me ajudou", relembra.
Perguntada pela reportagem qual a justificativa para não ter
feito uma denúncia, ela explica que há nove anos, a visibilidade dada aos casos
era menor, ao menos no seu entendimento. Outro fator decisivo foi o medo do que
a denúncia poderia acarretar, uma vez que o patrão possuía também cargo
político. "Ele era uma pessoa importante na sociedade. Tinha muito poder. Era
dono de negócio e político. Se eu fizesse uma denuncia, de alguma forma ele
faria com que arquivassem", afirma.
Com a incerteza do que fazer, seguiu com o trabalho com o
jovem aprendiz, momento em que o chefe organizou uma viagem, que para a
adolescente do passado, disse que seria de trabalho. "Viajei com ele. Eu sabia
até então que era uma viagem de trabalho. Durante a viagem, os assédios
apareceram novamente. Dessa vez foi pior, ele ofereceu dinheiro. Eu era menor
de idade. Fiquei entre o medo, a falta de perspectivas e aceitei o dinheiro.
Foi assim que tu do começou e que conheci esse mundo", ressalta.
Atualmente cursando enfermagem em Santiago, a jovem cita que
foi assim que decidiu cobrar por sexo, a partir de uma situação de falta de
perspectivas e um assédio.
A rotina
Ela que já trabalhou como faxineira, babá e assistente de
exposição de arte - a qual tem grande paixão, principalmente pinturas -, tem
uma rotina de trabalho que envolve um roteiro em casa noturnas na região e
estado. O dia em que não atende cliente é apenas no domingo. Isso permite que
no mês tenha uma renda popularmente chamada de dinheiro fácil, de até R$ 6mil.
A garota de programa declara que o estilo dos clientes
variam, do rico ao pobre, do solteiro ao casado. A relação que tem com os
homens se atem a sexo e escutas. "Todos eles querem sexo. Mas uma grande
maioria, quando procuram, também querem desabafar problemas. Problemas
relacionados a trabalho, quase sempre. Adoram falar de trabalho. Mas tem os que
também reclamam do convívio familiar", pontua.
Os julgamentos e o que
pensam
Mesmo sendo a profissão mais antiga do planeta, a prostituição
é assunto ignorado e, quando vem à tona, é em forma de julgamento. "Ninguém
quer saber do teu caráter, de quem você é, se tem sonhos ou não. Ninguém! Para
homens você é objeto, para mulheres, você é destruidora de lares", fala.
Apesar de todo o
julgamento, a garota conta que se sente digna, pois enfrenta sozinha os
fantasmas da profissão e que não rouba nada de ninguém. "Sou eu quem viro
noites e que recorro cidades para sobreviver. Eu não entro nas casa das famílias,
eu não destruo lares. Eu não vou em busca de homens casados. Se sou procurada,
já existe um problema, mas não sou origem dele", explica. Para ela, a sociedade
é muito boa, mas só quando se trata de rotular pessoas, com hipocrisia e
desprezo.
O assédio, que sofreu há anos, ainda é presente, mas com outras
pessoas. "Quando não é corporal, de cliente achando que tudo pode, de não
querer pagar, de pessoas que descobrem o que você faz e querem se aproveitar; o
assédio é moral", lamenta.
Os sentimentos que ficam de lado
Loira, com corpo definido e olhos verdes, a personagem afirma
ter uma boa autoestima e, que cuida muito dos próprios pensamentos para isso. O
problema é o lado sentimental. Por conta do que decidiu e do primeiro relacionamento,
declara que nunca aprendeu a lidar com o que sente, o que faz com que sinta-se
carente de amor e carinho.
O futuro e o fim como
garota de programa
A jovem agora estuda para tentar outro futuro, o de contribuir
com a vida dos outros, menciona uma dos sentimentos mais pessoais. "Espero me
formar e poder levar outra vida. Algo que sempre me pergunto e que descobri é
que não importa quem foi o primeiro, mas sim qual deles que será o último.
Porque haverá um", enfatiza.
Ao finalizar, com apenas 25 anos, a mulher que, além de quem
paga é acima de tudo, dela mesmo, diz que todas as mulheres são rainhas e se
utiliza de Frida para homenagear a todas "Todo
dia é dia, toda hora é hora, de saber que esse mundo é seu. Um viva para as
mulheres que sabem disso".
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