SÃO LUIZ GONZAGA

São Luiz Gonzaga, RS, Brazil

Terra de alemão? Estudo da UFFS aponta para a invisibilidade do negro em Cerro Largo

  • 24 de dezembro de 2017

Vamos aos dados: de 1955 a 2017, 93,3% dos prefeitos do
município de Cerro Largo foram de descendência alemã, contra 6,7% de prefeitos
com sobrenome brasileiro, ou seja, das 15 gestões, apenas 1 não era de
descendência explicitamente alemã. Dos vice-prefeitos, 86,7% eram de
descendência alemã. De vereadores, nesse mesmo período, 71,1% foram
descendentes de alemães, 16,2% de brasileiros e 12,7% de descendentes de
italianos. Com relação às empresas do município, das 20 maiores, 18 são
controladas por descendentes de alemães.

O censo do IBGE aponta ainda que em Cerro Largo existem
setores, cuja população é composta por mais de 40% de negros. É o caso do setor
censitário nº 11, que corresponde ao sul do Bairro Brasília e parte da Vila
Nova. Esta localidade apresenta as piores condições de saneamento básico de
toda a zona urbana do município. Trata-se do único setor onde os moradores
estão expostos ao esgoto a céu aberto. Também é ali onde mais de 40% das suas
vias não estão pavimentadas, e não há calçamento em 98% da localidade. Ainda
segundo o IBGE, é neste setor onde os moradores recebem o menor rendimento de
todo município. Em contraste, a área central e adjacências do município é onde
há a maior concentração de pessoas brancas, 100% das vias são pavimentadas e
onde está a maior concentração de renda mensal.

Será coincidência? pergunta-se o mestrando em Desenvolvimento
e Políticas Públicas da UFFS Campus Cerro Largo, Leandro Alexandre da Silva.
Esse questionamento levou-o a desenvolver, junto a orientadora Sandra Vidal
Nogueira, a dissertação intitulada Paisagens silenciosas: a invisibilidade do
Negro em Cerro Largo em que, por meio desses e outros dados, constatou a
existência de uma situação de invisibilidade da população negra
cerro-larguense. Sobre esse assunto paira um total silêncio. A falta de
representatividade política e econômica desses cidadãos; a inexistência de
políticas, projetos e ações voltadas a melhorar suas condições básicas de
acesso à renda, consumo e qualidade de vida; a invisibilidade verificada nos
registros da História oficial do município; e a ausência de debates sobre
desigualdades étnico-raciais se configuram no que chamamos de silêncio da
ausência, explica o pesquisador. Segundo Leandro os negros em Cerro Largo vivem
em um não-lugar de invisibilidade, silêncio e negação de seus direitos, o que
termina por relegá-los a uma situação de quase-cidadania. Tal situação é uma
clara violação aos direitos humanos e aos preceitos democráticos de nosso país,
por isso, urge a construção de políticas públicas no sentido de incluir essa
população na cidadania.

Leandro é historiador, natural de São Paulo, e mora em Cerro
Largo desde 2010. Em seu trabalho, o estudante, que já teve esse olhar de
visitante, diz que quem chega no município, abre o jornal, frequenta os
restaurantes, comércio, prefeitura pode chegar a uma conclusão: Cerro Largo é
mesmo uma cidade de alemão. Porém, o censo do IBGE confirma que essa é uma
análise superficial. Em Cerro Largo, a população negra, na zona urbana, chega a
20%, segundo o censo do IBGE (2010). Para Leandro, 20% de indivíduos declarados
pretos e pardos é uma porcentagem expressiva para o município. E por que eles
não circulam nesses espaços?

Invisibilidade e
silêncio

Segundo o autor, para explicar a forma como a sociedade
historicamente se organizou, ele usa a metáfora da cebola, que ilustra uma
divisão em camadas. No centro estão os membros da comunidade que se fez
hegemônica. Nas camadas mais externas estão os demais descendentes de europeus,
como italianos e poloneses. Ainda mais para fora estão os denominados
brasileiros. Durante seu trabalho, Leandro utilizou os termos, alemão e
brasileiro, se apropriando da forma como usualmente esses termos são
empregados. Alemão é o teuto-brasileiro que incorporou os valores atribuídos
aos colonizadores pioneiros e se identifica etnicamente como alemão. Brasileiro
é a maneira como tradicionalmente os descendentes de portugueses, geralmente
mestiços com afro-brasileiros e indígenas são tratados. O autor afirma que Ser
brasileiro em Cerro Largo é ser de fora, é ser o forasteiro étnico. No modelo
da sociedade cebola que exclui até mesmo o brasileiro, negros e indígenas se
encontram totalmente excluídos e silenciados, conclui Leandro.

LEIA MAIS EM RADIOMISSIONEIRA.COM

MENU PRINCIPAL

MENU NOTÍCIAS

ENTRE EM CONTATO CONOSCO

TELEFONE    55 3352-4141

WHATSAPP    55 3352-4141

LOCALIZAÇÃO    Rua Júlio de Castilhos, 2236 - Centro - São Luiz Gonzaga/RS

SIGA NAS REDES SOCIAIS

COPYRIGHT Ⓒ TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

ORGULHOSAMENTE DESENVOLVIDO POR

IMPORTANTE: Não autorizamos a reprodução de conteúdo em outros sites, portais ou em mídia impressa, salvo sob autorização expressa.