SÃO LUIZ GONZAGA

São Luiz Gonzaga, RS, Brazil

Cinco anos após tragédia da Kiss, mãe relata momentos de saudade e luto pela filha

  • 27 de janeiro de 2018

"Hoje é um dia de chorar, rezar, sofrer e sentir saudade".
Não só hoje, 27 de janeiro de 2018, quando a tragédia da Boate Kiss completa
cinco anos. Pais das vítimas têm vivido a situação há 1.825 dias, e assim deve
continuar para sempre.

Esse é o drama da professora Vera Azzolin, moradora da localidade da
Timbaúva, interior de Bossoroca. Na paisagem bucólica, rodeada de eucaliptos no
alto de uma coxilha, ela e a família tentam superar a perda precoce da filha
Kelli Azzolin, na época com 23 anos. "Perdi mais que uma filha. Perdi uma
amiga, uma companheira, uma conselheira", diz em lágrimas, logo nos primeiros
minutos da conversa com a reportagem da Rádio Missioneira.

A última ligação

Ambas se falavam por telefone várias vezes ao dia. Na noite
do dia 26, por volta das 22h, Vera não poderia
imaginar que seria a última vez que ouviria aquela voz. "Ela me disse que ia
sair pra se divertir com duas amigas e um amigo", lembra. "Ainda me disse que
iam de táxi, pra não ter perigo de dirigir caso bebessem", complementa.

Os quatro jovens morreram no incêndio. Segundo a mãe, Kelli
não saía muito. "Nós incentivávamos que ela saísse, não só estudasse. Ela
estava tão feliz aquele dia. Mas nunca pensamos que isso ia acontecer",
lamenta.

Depois da última ligação, foi acordada e informada sobre a
tragédia, quando veio um dos momentos mais difíceis. "Eu não consigo acreditar
que eu falei com ela, estava tudo bem, e depois tive que ir reconhecer o corpo
dela em meio a dezenas", argumenta.

As recordações

Na casa da família, tudo lembra a filha. Dezenas de portas
retratos estão espalhados nas paredes e na estante. Fotos das formaturas, com
os pais, em viagens, o irmão Felipe, com as amigas na cidade universitária que
tanto amavam. São fotos de momentos alegres. Alegres como ela era.

Outra lembrança eterna está no braço de Vera. Com caligrafia
delicada, o nome "Kelli" está tatuado para sempre, assim como o amor e a
saudade que a acompanhará eternamente. "É uma dor que não dá pra descrever e
que não desejo a ninguém", comenta.

A fé e o apoio

O apoio do marido, do filho e demais familiares ajudam a
enfrentar a dor. Cerca de um ano meio após a tragédia, os dias sombrios ficaram
um pouco mais coloridos, com a chegada do neto Guilherme.

Filho do irmão Felipe com a esposa Daniele, o bebê trouxe
alento aos corações. "Ele é a cara de Keli. Lembra muito ela, é incrível a
semelhança", diz em tom um pouco mais alegre. Vera recorda que a jovem sempre
quis ser tia. "Tenho certeza que ela o amaria, assim como ele a ama", explica.
O pequeno olha as fotos na estante e diz "Tia Keli, tia Keli!", e acompanha
familiares no túmulo da jovem.

O drama da mãe é o mesmo de outros mais de 200 pais que
passam pelo mesmo luto. Só eles entendem de fato como é a dor, e tentam juntos
amenizar a saudade. Ela mantém contato diário com outros dois pais que perderam
os filhos que estavam na boate junto com a filha. O quarteto era
inseparável. 

Um dos casais mora em Itaqui. "Nos falamos pelo Whatsapp,
ligações e às vezes passamos finais de semana lá com eles", conta. Com o outro
casal, de Santa Maria, as visitas são mais raras devido à distância, mas o
contato ocorre sempre. Os pais da outra vítima moram em Santa Catarina.

E a justiça?

Vera não acredita que a punição criminal aos culpados vá
resolver algo. Ao mesmo tempo, pensa que caso sejam condenados atos que
causaram a tragédia, a dor por diminuir. "Eu acho que iria diminuir um pouco,
mas não vai trazer nossos jovens de volta", argumenta. Ela vê com preocupação a
demora no processo. "Esse é o retrato do nosso Brasil. Não há justiça",
lamenta.  Vera crê em culpados. "Como
deixaram uma boate funcionar de forma irregular? E o prefeito ainda hoje é
secretário?", detalha com indignação.

A última decisão do caso, em dezembro, causou revolta. O 1°
Grupo Criminal do Tribunal de Justiça determinou que os réus do processo não
sejam julgados em júri popular, como pedido pelos réus. O Ministério Público
(MP) vai recorrer no Superior Tribunal de Justiça (STJ) irá decidir. Além da
dificuldade de reverter a decisão, que favorece os acusados, o tribunal pode
levar até três anos para julgar o recurso, o que pode alongar o desfecho. Até
agora, ninguém está preso pelas 242 mortes, 693 feridos e centenas de pessoas
atingidas para sempre pela tragédia, entre elas Vera.

"Eu não tenho mais planos e sonhos. Antes eu tinha, com ela,
agora eu sobrevivo a cada dia", cita. Ela aposta na fé e na esperança do
reencontro. "Eu tenho muita fé em Deus. Vivo pelo dia em que vou encontrá-la de
novo. Acredito muito nisso", finaliza em lágrimas.

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