Mesmo com o calor que beira os 35° C, quem descumprir a medida está sendo mandada embora

Foto: Arquivo/Rádio Missioneira - Fonte: Rádio Missioneira - Autor: Amanda Lima
06 Dezembro 2017 11:12:26

Alunas Escola Rui Barbosa, tanto crianças quanto adolescentes e jovens, estão proibidas de usarem shorts dentro da escola. Mesmo com o calor que beira os 35° C na região, quem descumprir a medida está sendo mandada embora da sala de aula. A proibição, imposta pela equipe diretiva, que é composta somente por mulheres, causa indignação nas alunas e mães.

Conforme relatos das jovens, integrantes da direção passaram ontem de sala em sala para fiscalizar o tamanho da roupa das alunas, colocando a mão na perna para ver quantos dedos estava acima do joelho.

A jovem Ana Pacheco, estudante do Politécnico, foi expulsa da aula ontem por estar de shorts.  "É não ter o que fazer ficar indo de sala em sala pra ver quem tá de shorts", escreveu no Twitter. Ela não a única que foi obrigada a ir embora da aula.

Uso causaria constrangimento aos homens da escola

As professoras explicaram para alunas que o uso de roupas curtas pode constranger os alunos e professores do sexo masculino. Segundo a estudante Gabriele Medeiros, que está no terceiro ano, a medida é absurda e machista. "O mundo nunca vai ir pra frente enquanto não falarem pros guris respeitarem as gurias, independente da roupa que elas tão usando, mas sim proibindo as gurias de usar o maldito shorts", relatou.

Na semana passada, responsáveis pelas alunas receberam um bilhete da direção informando sobre a regra. "Nossa escola estabelece regras quanto ao uso do short para padronização de seu comprimento". A mãe de uma aluna de 12 anos enviou à escola uma carta de repúdio. "Em um país onde hoje luta-se tanto contra o preconceito e a desigualdade de gênero, chama minha atenção o fato de  o comprimento de um short e/ou bermuda causar tanto transtorno ao ponto de constranger minha filha em sala de aula", diz trecho do comunicado.

"Minha filha é uma criança", rebate mãe

A mãe da aluna, que prefere não se identificar, informou à reportagem da Missioneira que está indignada com o posicionamento, ainda mais em uma escola composta por mulheres na direção. "Minha filha é uma criança, onde já se viu pregar que um garoto ou professor vai ficar nervosinho em vê-la de shorts?", argumentou.

Para a psicóloga e professora Ana Claudia Delajustine, quando a escola justifica o procedimento por causar constrangimento ao sexo masculino, há um problema em torno da hiperssexualização dos corpos. "O shorts é usado para diminuir a sensação de calor, do contato de roupa cobrindo a pele. Da mesma forma que os meninos usam regatas e bermudas. O impacto dessa mensagem de proibição pode pairar tanto sobre as meninas como sobre os meninos", explica a profissional.

Ela defende que esse tipo de discurso contribuiu para a reprodução do discurso de culpabilização da vítima em casos de assédio e até mesmo de estupro. "Os meninos crescem com a sensação que tudo pode. Esse contexto contribui para que reproduzam o discurso de que a menina pediu para ser abusada", argumentou Ana.

A psicóloga aponta que a repreensão às meninas é o caminho errado. "Não precisamos repreender as meninas, mas educar as crianças sobre sexualidade e respeito", cita Delajustine. Ela complementa que proibir a roupa é uma tentativa de silenciar um sintoma de uma sociedade que sexualiza o corpo das meninas e mulheres.  

Diretora diz que norma vale para todos

Procurada pela reportagem da Rádio Missioneira, a diretora Claudete Crestani, informou que a medida é norma da escola, aprovada pela comunidade escolar em assembleia. "Temos tudo registrado em ata", ressaltou a diretora. O documento foi enviado a todos os pais informando sobre a questão. Para a professora, a medida tem objetivo de proteger as meninas.

Ela ainda informou que shorts não são proibidos, mas tem que estar em comprimento adequado. Conforme Claudete, a regra vale também para meninos, mesmo que nenhum tenha sido retirado em sala de aula ao usarem shorts.

Em relação ao posicionamento dos pais diante da medida, reforçou que a escola está de portas abertas ao diálogo. 



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